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Posts de abril de 2016

Precisamos falar sobre o Feminicídio

Postado em 17.04.2016  
Disponível em: http://www.telesurtv.net/__export/1416858335681/sites/telesur/img/news/2014/11/24/femi.png_1718483346.png

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No Brasil, a taxa de feminicídios é a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No dia 22 de março deste ano, a pacata cidade gaúcha de Bom Princípio, no Rio Grande do Sul, passou a fazer parte desta infeliz estatística. As 7 horas da manhã, o ex policial militar Marcelo, de 47 anos,  matou a companheira Márcia , 27 anos e as enteadas Jaíne de 16 anos e Jeisse de apenas 4 anos, golpeando-as violentamente, usando uma faca de cozinha e uma adaga. Ao longo de três anos, o casal terminou e reatou o relacionamento várias vezes e estavam separando-se, ela recebera uma medida protetiva após denúncia da violência e ameaças que sofria, porém, ainda acreditava na possibilidade de ser  amada e serem uma família.

No complexo processo de aceitação/subjetivação/objetivação do que foi construído sócio-historicamente em torno de ser mulher e de ser homem nas sociedades herdeiras de uma cultura patriarcal, adquire relevância indiscutível o mito do amor romântico. Esse mito perpetua o vínculo funcional dependente nos relacionamentos entre um casal. Junto aos sentimentos amorosos, vão instituindo-se posições de poder que não favorecem as mulheres, fazendo com que estas sejam dependentes do amor de um homem.  O amor romântico não é fonte de transcendência, felicidade nem autorealização,  ao contrário do que transmite a mitologia popular, ele constitui uma das principais causas da brecha existente entre homens e mulheres, sendo uma das práticas culturais que obrigam a mulher a aceitar e amar sua própria submissão (Illuz, Eva. Por qué duele el amor. Una explicación sociológica. Buenos Aires: Katz Editores, 2014).

Da cena brutal å morte da mãe e das filhas, tudo choca. Falamos sobre o fato nas rodas de conversa do dia, durante a semana, talvez até ao longo do mês. Alguns até partilham a notícia, mas com zelo, pois gostamos de partilhar a priori coisas de bom astral, afinal, gostamos de ser curtid@s!

Passado pouco tempo, sobressai um aspecto relevante e que quase não percebemos: o nosso esquecimento. A maioria de nós esquece o feminicídio rapidamente. Não protestamos, não nos escandalizamos com estas mortes com a devida intensidade e valor que deveríamos.

Diante da brutalidade do feminicídio, assistimos cotidianamente mulheres e homens de outros países saírem as ruas exigindo mudanças radicais nas políticas públicas, pois não admitem com tanta naturalização que mulheres e crianças sejam assassinados por quem deveria preservar suas vidas. E no Brasil?  Admitimos, pois infelizmente o jargão “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” criou no imaginário social a idéia que não podemos como sociedade interferir na violência doméstica, por pertencer a esfera privada. O que é um erro grave, pois o Estado deve meter a colher, com a formulação de  políticas públicas para o enfrentamento da violência doméstica contra a mulher e a sociedade não pode seguir  alargando as margens de aceitação da violência contra mulheres.

Sobre o fato ocorrido no sul do país,  o ex marido de Márcia justifica sua atitude alegando ter sofrido uma suposta traição. Afirma: ela é a culpada, não se acertava com ninguém, se separou duas vezes antes de casar com ele.  Ou seja: ela é a culpada da sua morte!

Somos culpadas se somos assassinadas por companheiros, pois insistimos em uma relação; somos culpadas se somos enganadas em um relacionamento, pois somos ingênuas e imaturas; somos culpadas do estupro pois usamos roupas inadequadas ou provocativas; somos culpadas se tentamos um relacionamento e este não evolui,  como se os relacionamentos fossem responsabilidade  somente das mulheres…

Somos julgadas por homens e mulheres; assusta a quantidade de relatos que escuto de mulheres que são extremamente cruéis ao julgarem outras mulheres. A violência intragênero cerca as relações femininas e raramente refletimos sobre o quanto somos violentas nos julgamentos e atitudes com outras mulheres…

Esquecemos o feminicídio, pois negamos que nossas filhas, netas, amigas, mães, colegas, enfim, todas nós em alguma medida, podemos ser vítimas de alguma maneira: morrendo ou perdendo alguma mulher que amamos.

Cada mulher que é assassinada leva junto  consigo para o túmulo a felicidade de toda a família, pois quem permanece vivo, jamais se recupera totalmente desta brutalidade.

“Feminicídios são assassinatos cruéis e marcados por impossibilidade de defesa da vítima, torturas, mutilações e degradações do corpo e da memória. E, na maioria das vezes, não se encerram com o assassinato. Mantém-se pela impunidade e pela dificuldade do poder público em garantir a justiça às vítimas e a punição aos agressores”.

“O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.”
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher (Relatório Final, CPMI-VCM, 2013)

 

Matéria sobre o assassinato de Márcia (27 anos)  e suas filhas  Jaíne (16 anos) e Jeisse (4 anos)  disponível em :

http://www.jornalnh.com.br/_conteudo/2016/03/noticias/regiao/299391-autor-de-triplo-homicidio-conta-detalhes-do-crime-que-chocou-bom-principio.html