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Evasão das adolescentes grávidas: corpos que somem do espaço escolar

Postado em 06.08.2016  
Disponível em: http://osepeense.com/wp-content/uploads/2015/05/jovem-gravida.jpg

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No Brasil, o Ministério da Saúde considera a gravidez na adolescência como um problema de saúde pública.
Desde 2004 venho pesquisando sobre a gravidez na adolescência e a educação sexual nas escolas e em 2013 iniciei a pesquisa intitulada “Geografias de exclusão adolescentes grávidas nas escolas do sul do Brasil: corpos abjetos” na Universidade Feevale/RS, com fomento do CNPq. Essa pesquisa teve por objetivo caracterizar práticas relativas à educação sexual e descrever o tratamento dado às adolescentes grávidas nas instituições de ensino público estadual na cidade de Novo Hamburgo/RS, bem como analisar a evasão dessas alunas no período de 2013 a 2016, com a intenção de examinar os processos de educação sexual nas escolas.

Os resultados da pesquisa apontam para a ausência de um controle por parte das escolas das alunas que engravidaram e evadiram, sendo que das 91 alunas que foram registradas, somente 9 continuaram os estudos depois da gravidez.

Percebe-se também uma certa banalização sobre o abandono escolar de uma aluna grávida. Já era esperado que o fato ocorresse, como afirma uma das entrevistadas quando diz que “no ano retrasado, nós tivemos uma menina do sexto ano, recém tinha completado 13 anos, ela engravidou, teve o bebê, deixou de vir para a escola e agora a gente ficou sabendo que ela já está na segunda gravidez esse ano”. Outra diz: “o que a gente vê aqui na escola é que as meninas abandonam tudo, abandonam estudo, elas têm que se dedicar à criança, inclusive a gente já recebeu alunos de meninas que foram gestantes na adolescência, e geralmente são alunos com muitos problemas a serem resolvidos, então eu vejo como algo que não é bom”. Ou seja, o estigma existente sobre a mãe adolescente como sendo alguém com problemas se estende sobre sua prole, pois seus filhos/as são vistos/as na escola como tendo “problemas”.

Outro dado relevante da pesquisa é o entendimento que  a educação sexual deve ser e é mais dirigida às alunas que aos alunos. Entre as justificativas apresentadas, está o fato de considerarem que as alunas amadurecem mais cedo e que devem saber mais sobre sexualidade pois são elas que engravidam. Além disso, são elas que acabam arcando com as consequências da gravidez, como se pode observar em um relato: “é muito complicado para as alunas, porque praticamente interrompe todo um processo natural das coisas, daí com criança vai ter que cuidar, vai ter que trabalhar muitas vezes para poder alimentar, porque muitas vezes só Deus nem sabe quem é o pai, ou o pai só faz o filho e depois desaparece e quem assume na verdade é a mulher e isso modifica totalmente a vida da adolescente”. Por esse motivo, os/as docentes entendem que as alunas precisam ter mais conhecimento sobre a prevenção da gravidez, reforçando e perpetuando a suposição de que os cuidados acerca desta e dos filhos são responsabilidades do sexo feminino. Isso aponta para a problemática da gravidez na adolescência: uma importante questão de gênero.

Evidentemente, não podemos negar que a forma como os adolescentes estabelecem os vínculos ainda está impregnada de estereótipos e mitos que colocam as fêmeas em uma situação de desvantagem e de maior vulnerabilidade. Os adolescentes que engravidam uma aluna são desresponsabilizados e não raras vezes aplaudidos pela masculinidade apresentada. Contatou-se também que a idade das alunas geralmente é inferior a idade dos jovens com quem relacionam-se sexualmente, o que nos faz pensar no descompromisso e irresponsabilidade destes  ao praticar uma relação sexual desprotegida, sem pesar as possibilidades das consequências, como  a transmissão de DSTs ou gravidez.

A adolescente que, por diversas razões, continua com a gravidez não está precisamente o mais próximo do ideal de feminilidade que foi construído para essa etapa da vida, inclusive nem sequer nos casos de uma gravidez adolescente planejada e desejada. A adolescente grávida, de maneira geral, começa a confrontar as expectativas em torno do seu gênero para essa fase da vida e a vivenciar situações de evidente exclusão e afastamento da escola, sendo que são sutilmente “convidadas” a permanecerem em casa para ficarem mais “protegidas” ou simplesmente somem do espaço escolar.

Constatamos que a maioria das adolescentes grávidas que evadem não são objeto de investimento por parte das escolas ou de cuidados por parte do Conselho Tutelar, na tentativa de que regressem ao convívio escolar. Ao contrário, o abandono é dado como normal e não existe uma preocupação com esse fato, tanto que na maioria das escolas pesquisadas não há sequer um controle dessas ocorrências, o que denota o descaso. Quando há um controle e é feito o encaminhamento do abandono escolar da adolescente grávida ao Conselho Tutelar, por meio do preenchimento e encaminhamento da Ficha de Comunicação de Aluno Infrequente (Ficai), as escolas revelaram que não recebem retorno desse órgão. Em raras ocasiões, há uma visita de algum conselheiro tutelar na escola ou na casa da aluna que evadiu.

Infelizmente, estas alunas que evadem por conta da gravidez, raramente retornam `a escola e acabam tornando-se mulheres  que, por conta da baixa escolaridade,  trabalham em sub empregos e contribuem para o aumento dos índices da feminização da pobreza. A pobreza é feminina e a gravidez na adolescência é um dos seus nascedouros, pois na maioria dos casos acaba interrompendo o ciclo de formação e desenvolvimento educacional destas mães menininhas.

Na matéria abaixo, o Jornal NH em 05/08/2016 apresenta a pesquisa que desenvolvo e alguns dos seus resultados, convido `a leitura.

Quando a maternidade vem cedo demais