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Categoria "Mulher"

Enredamento, sedução e manipulação: a violência perversa contra mulheres

Postado em 06.07.2016  

É possível começar a destruir alguém apenas com palavras, frieza emocional, insinuações: isto chama-se violência perversa. Em suas teias, os perversos enredam as mulheres eleitas para serem suas vítimas…

 

               Disponível em http://3.bp.blogspot.com/_921nhmHEG1s/TEWtSyWQ2GI/AAAAAAAAA9c/38ILTiIaPIE/s1600/Mulher+na+teia.jpg

 

Este texto interessa a todos aqueles que não desejam ficar indiferentes ao problema da violência contra mulheres, que gera tantos sofrimentos nelas e em seus filhos e filhas.

Escutamos cotidianamente pontos de vistas equivocados, afirmando que a violência contra as mulheres começa com a permissão destas. Alguns afirmam que esta permissão ocorre no olhar, outros dizem que as vestimentas favorecem, uns acham que depende da reação das mulheres… Enfim, são tantos “achismos” e “teorias” que imutavelmente acabam culpabilizando as mulheres das violências que sofrem. Por isto, torna-se importante que possamos discutir este tema, pois no Brasil, estima-se que 5 mulheres são espancadas a cada 2 minutos, ocorre 1 estupro a cada 11 minutos, 1 feminicídio a cada 90 minutos e 179 denunciam casos de agressão a cada dia, segundo dados da Agência Patrícia Galvão. http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/sobre-as-violencias-contra-a-mulher/

As agressões físicas no casal não acontecem de repente, há uma escalada de comportamentos abusivos e de intimidação que iniciam-se antes de ocorrer a violência física, que é geralmente o último nível de violência. Mas, a pior delas é a menos visível, a psicológica, que não deixa marcas denunciáveis e é a mais utilizada pelos perversos. Se as mulheres deixam que isto ocorra com elas, é porque foram aprisionadas, colocadas sob influência. Este processo, segundo a francesa Hirigoyen, psiquiatra e vitimóloga, recebe o nome de ENREDAMENTO. (Hirigoyen, Marie-France. Assédio moral: a violência perversa no cotidiano. Ed Bertrand Brasil, 2012)

Muitas mulheres perguntam: por que aconteceu comigo? O que eu fiz para viver/merecer esta situação? É importante que entendamos que elas nada fizeram, são vítimas porque foram designadas para serem vítimas pelos perversos. Isto mesmo: os agressores de mulheres tem um perfil psicológico de perversão e/ou sociopatia.

Estes homens agressores invariavelmente são afetivamente frios e jamais sentem-se culpados, o que lhes permite terem uma excelente noite de sono depois de agredirem ou fazerem algo planejadamente destrutivo com a companheira. As mulheres eleitas para serem vítimas são escolhidas porque elas tem algo que eles querem ter, como status profissional, dinheiro ou características como a bondade, enfim, elas tem algo ou um atributo que eles não possuem e querem ter retirando dela, manipulando-a. O vazio interior de um perverso busca preencher-se com o que o outro tem, apropriando-se desta forma.

A manipulação faz parte da vida e ocorre diariamente com todos nós, o que faz a diferença na relação com um perverso é que há uma intencionalidade bem específica: a relação inicia com uma sedução perversa, com as ações planejadas por ele: verificará se a vítima está psicologicamente vulnerável, servindo aos seus propósitos; analisará os pontos fracos da vítima, para manipular com mais facilidade.

Nesta primeira fase, o perverso trata de seduzir a vítima, afastando-a da realidade, manipulando as aparências e demonstrando um interesse e uma afetividade falsos. Esta fase, também chamada de “descerebração”, pode desenrolar-se por muitos anos, ocorre progressivamente durante os primeiros tempos da relação por meio de um processo de pura sedução: ele será o maior incentivador dos projetos dela, o melhor pai ou cuidador para seus filhos, o companheiro mais atencioso do mundo… Sua fala histriônica o denuncia e geralmente alguém da família escuta a encenação no tom de voz e preocupa-se, mas o descerebramento faz com que a mulher não perceba ou não considere as observações que vem de fora da relação, pois já está presa pelo enredamento.

Nesta fase da sedução iniciam-se os ataques ao psiquismo da vítima, desestabilizando-a. Ela começa gradativamente a perder a confiança em si própria e a pensar que somente consegue fazer suas obrigações se receber a ajuda tão amável que vem dele, seu companheiro maravilhoso. No enredamento da vítima, o perverso narcisista não ataca de maneira frontal nas suas atuações, age sempre de forma indireta e começa a desestabilizar a vítima com estas ações sutis. Inicia a invasão do psiquismo da vítima, borrando as fronteiras entre o que é dela e o que é seu. Nas palavras de Hirigoyen: “O enredamento consiste em, sem argumentar, levar alguém a pensar, decidir ou conduzir-se de maneira diferente do que faria espontaneamente.”

Compreender o que ocorre e a influência e o controle que recebe faz a vítima se retirar da relação e em muitos casos, denunciar. Mas, como detectar os primeiros sinais de um abuso desta natureza? Mulheres em estado de subjugação psicológica: onde começa a influência normal e saudável, onde começa a manipulação?

Como se reconhece um manipulador? Muito difícil reconhecê-los prontamente, pois a sedução é seu modo de ser em todos os lugares onde atua. Via de regra, um manipulador é alguém que vai usar de um intenso processo de sedução para levar uma mulher a fazer algo que ela não faria por si mesma.

Para que fazer a vítima obedecer suas vontades, primeiro ele seduz, cola-se nela para se agarrar na sua vida. Em geral, inicialmente ele se coloca como vítima de algo/alguém ou desperta a compaixão da vítima de uma forma ou de outra. Então, quando se aproximou o suficiente de quem elegeu, empurra esta pessoa para longe para obter o que espera dela, pois neste momento o psiquismo dela já foi vampirizado e ela acredita que precisa dele para viver. A vítima passa a dar ao manipulador tudo que ele quer, para não perdê-lo, sem perceber o processo. Isto invariavelmente inclui exploração material.

Hirigoyen reitera: ” um manipulador pode manipular para obter dinheiro e, quando ele obteve o que ele quer, ele vai-se embora. Isso pode ser igualmente sobre o domínio emocional e ocorre muito frequentemente para obter poder, é um jogo de poder, de dominação e também uma forma de esmagar alguém, uma forma de tomar todo o lugar de alguém.”

Desta forma, os agressores perversos vão controlando e manipulando suas vítimas, vampirizando-as, retirando delas a auto estima, colocando-as numa espiral depressiva ou mesmo suicida. Muitas mulheres não sobrevivem depois de serem vítimas em uma relação com um perverso e se suicidam. Essas violências insidiosas decorrem de uma vontade que o perverso tem de se livrar-se de alguém sem sujar as mãos, porque o perverso avança mascarado, buscando com seus disfarces a compaixão de novas vítimas.

Comumente os perversos seguem perseguindo as vítimas, mesmo depois da separação. Os americanos chamam isto de de stalkin , ou seja, a perseguição permanente que consiste no fato dos perversos, ao não quererem largar sua presa, invadem permanentemente a vida das vítimas com suas presenças, mesmo que por meio do uso da internet. Neste caso, é fundamental fazer intervir a justiça, cercando as vítimas de medidas protetivas que restrinjam a atuação dos agressores.

A violência contra as mulheres inicia-se na falsidade e na psicopatia que sustentam os agressores. Estas falsidades precisam ser desvendadas para permitir que as vítimas possam encontrar as suas referências e sair do domínio dos seus agressores, compreendendo que a culpa não é delas, pois foram eleita justamente por uma qualidade que elas tem e que eles querem para si, vampirizando-as. O que move os perversos na direção das vítimas é a inveja: os perversos invejam, acima de tudo, a vida que as vítimas tem. E buscam apropriar-se das vidas que invejam, pois a vitalidade e a vontade de viver das vítimas aponta-lhes suas próprias fraquezas e faltas.

Alerta-nos Hirigoyen: “Não se contentando jamais, os perversos narcisistas estão sempre na posição de vítimas (…)   e por ocasião das separações os perversos posam de vítimas abandonadas, o que lhes dá melhor papel e lhes permite seduzir um outro parceiro, consolador.” E segue o ciclo de seduções…

Acrescento que os perversos facilmente posam de vítimas para seduzirem outras pessoas que necessitam para perseguirem ou prejudicarem as suas vítimas , entre elas advogados/as, psicólogos/as, amigos /as, pessoas conhecidas suas e da vítima, etc…

Coloco-me ao do lado das mulheres que diariamente sofrem violências físicas e psicológicas em relações perversas. É fundamental que possamos enquanto sociedade nomear estas violências para o que de fato são: um verdadeiro assassinato psíquico que ceifa a vida de incontáveis mulheres, diariamente.

Poucas mulheres sobrevivem psiquicamente ao relacionamento com um perverso. As que sobrevivem, precisam se fortalecer e denunciar, pois cabe a justiça acolher e entender estas mulheres e suas sofridas vivências, dando a elas medidas de proteção, barrando juridicamente aos perversos.

 

Imagem disponível em:  http://3.bp.blogspot.com/_921nhmHEG1s/TEWtSyWQ2GI/AAAAAAAAA9c/38ILTiIaPIE/s1600/Mulher+na+teia.jpg

Precisamos falar sobre o Feminicídio

Postado em 17.04.2016  
Disponível em: http://www.telesurtv.net/__export/1416858335681/sites/telesur/img/news/2014/11/24/femi.png_1718483346.png

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No Brasil, a taxa de feminicídios é a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No dia 22 de março deste ano, a pacata cidade gaúcha de Bom Princípio, no Rio Grande do Sul, passou a fazer parte desta infeliz estatística. As 7 horas da manhã, o ex policial militar Marcelo, de 47 anos,  matou a companheira Márcia , 27 anos e as enteadas Jaíne de 16 anos e Jeisse de apenas 4 anos, golpeando-as violentamente, usando uma faca de cozinha e uma adaga. Ao longo de três anos, o casal terminou e reatou o relacionamento várias vezes e estavam separando-se, ela recebera uma medida protetiva após denúncia da violência e ameaças que sofria, porém, ainda acreditava na possibilidade de ser  amada e serem uma família.

No complexo processo de aceitação/subjetivação/objetivação do que foi construído sócio-historicamente em torno de ser mulher e de ser homem nas sociedades herdeiras de uma cultura patriarcal, adquire relevância indiscutível o mito do amor romântico. Esse mito perpetua o vínculo funcional dependente nos relacionamentos entre um casal. Junto aos sentimentos amorosos, vão instituindo-se posições de poder que não favorecem as mulheres, fazendo com que estas sejam dependentes do amor de um homem.  O amor romântico não é fonte de transcendência, felicidade nem autorealização,  ao contrário do que transmite a mitologia popular, ele constitui uma das principais causas da brecha existente entre homens e mulheres, sendo uma das práticas culturais que obrigam a mulher a aceitar e amar sua própria submissão (Illuz, Eva. Por qué duele el amor. Una explicación sociológica. Buenos Aires: Katz Editores, 2014).

Da cena brutal å morte da mãe e das filhas, tudo choca. Falamos sobre o fato nas rodas de conversa do dia, durante a semana, talvez até ao longo do mês. Alguns até partilham a notícia, mas com zelo, pois gostamos de partilhar a priori coisas de bom astral, afinal, gostamos de ser curtid@s!

Passado pouco tempo, sobressai um aspecto relevante e que quase não percebemos: o nosso esquecimento. A maioria de nós esquece o feminicídio rapidamente. Não protestamos, não nos escandalizamos com estas mortes com a devida intensidade e valor que deveríamos.

Diante da brutalidade do feminicídio, assistimos cotidianamente mulheres e homens de outros países saírem as ruas exigindo mudanças radicais nas políticas públicas, pois não admitem com tanta naturalização que mulheres e crianças sejam assassinados por quem deveria preservar suas vidas. E no Brasil?  Admitimos, pois infelizmente o jargão “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” criou no imaginário social a idéia que não podemos como sociedade interferir na violência doméstica, por pertencer a esfera privada. O que é um erro grave, pois o Estado deve meter a colher, com a formulação de  políticas públicas para o enfrentamento da violência doméstica contra a mulher e a sociedade não pode seguir  alargando as margens de aceitação da violência contra mulheres.

Sobre o fato ocorrido no sul do país,  o ex marido de Márcia justifica sua atitude alegando ter sofrido uma suposta traição. Afirma: ela é a culpada, não se acertava com ninguém, se separou duas vezes antes de casar com ele.  Ou seja: ela é a culpada da sua morte!

Somos culpadas se somos assassinadas por companheiros, pois insistimos em uma relação; somos culpadas se somos enganadas em um relacionamento, pois somos ingênuas e imaturas; somos culpadas do estupro pois usamos roupas inadequadas ou provocativas; somos culpadas se tentamos um relacionamento e este não evolui,  como se os relacionamentos fossem responsabilidade  somente das mulheres…

Somos julgadas por homens e mulheres; assusta a quantidade de relatos que escuto de mulheres que são extremamente cruéis ao julgarem outras mulheres. A violência intragênero cerca as relações femininas e raramente refletimos sobre o quanto somos violentas nos julgamentos e atitudes com outras mulheres…

Esquecemos o feminicídio, pois negamos que nossas filhas, netas, amigas, mães, colegas, enfim, todas nós em alguma medida, podemos ser vítimas de alguma maneira: morrendo ou perdendo alguma mulher que amamos.

Cada mulher que é assassinada leva junto  consigo para o túmulo a felicidade de toda a família, pois quem permanece vivo, jamais se recupera totalmente desta brutalidade.

“Feminicídios são assassinatos cruéis e marcados por impossibilidade de defesa da vítima, torturas, mutilações e degradações do corpo e da memória. E, na maioria das vezes, não se encerram com o assassinato. Mantém-se pela impunidade e pela dificuldade do poder público em garantir a justiça às vítimas e a punição aos agressores”.

“O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.”
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher (Relatório Final, CPMI-VCM, 2013)

 

Matéria sobre o assassinato de Márcia (27 anos)  e suas filhas  Jaíne (16 anos) e Jeisse (4 anos)  disponível em :

http://www.jornalnh.com.br/_conteudo/2016/03/noticias/regiao/299391-autor-de-triplo-homicidio-conta-detalhes-do-crime-que-chocou-bom-principio.html