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Categoria "Violência"

Dormindo com o/a inimigo/a: a vampirização

Postado em 03.10.2016  

 

Disponível em: lamenteesmaravillosa.com

Cotidianamente escutamos histórias de pessoas que sofrem em um relacionamento amoroso  por   não receberem afetivamente o que necessitam para sentirem-se amadas e nutridas emocionalmente. Entretanto, mesmo tendo consciência destas carências, estas pessoas não conseguem romper esta ligação de subordinação e passam a investir ainda mais no/a parceiro/a, acreditando que dando mais possam modificar ao outro, sem perceberem que nestes relacionamentos ocorre um processo de vampirização.

É difícil e doloroso o processo de dar-se conta da alienação vivida em uma relação amorosa onde um dos cônjuges sofreu este processo porque para o/a vampiro/a,  o/a parceira/o  não existe como pessoa, apenas como uma posse, algo para ser possuído. Saliento que esta psicopatia  não está vinculada a sexualidade da pessoa, existem vampiros em todos os gêneros: homens, mulheres e LGBTs.

Inúmeras vezes, quem sofre o processo de vampirização segue investindo na tentativa de ser compreendido/a e insiste em ter mais uma “conversa esclarecedora”, sem perceber que isto não alterará o rumo do caso. A vítima não compreende que não existe uma relacionamento, o que está estabelecido neste modelo é uma apropriação , por isto, não existem trocas. Uma relação é uma via de duplo sentido, existe vínculo, correspondência; a apropriação que ocorre na vampirização é de mão única, pois o/a vampiro/a só recebe e nada retribuí pois jamais percebe as necessidades emocionais do/a outro/a.

Os /as vampiros/as se alimentam da energia que vem de quem seduzem, pois precisam preencher o vazio psíquico que sentem, que origina-se em razões ligadas a sua história nas primeiras fases da vida.
Enfrentar este vazio gera sofrimento, faz com que tenhamos que assumir nossa incompletude, quebra nossa onipotência narcísica. Pessoas que enfrentam este vazio possuem dentro de si capacidades como o acolhimento e a empatia. Já os sociopatas não defrontam-se com seu vazio por não possuírem estas capacidades, por isso, necessitam vampirizar: para preencher-se.

A inveja normal que todos sentimos faz com que admiremos as pessoas que tem algo que queremos e isto nos move a evoluir para ter o que invejamos. Porém os sociopatas invejam de forma patológica, sobretudo a vida que vêem em quem elejem para vampirizar. Aproximam-se e seduzem esta pessoa para sugar e possuir o que ela tem e jamais se preocupam com o sofrimento que geram, pois não possuem culpa e habitualmente argumentam com exímia convicção que são vítimas, revertendo o quadro e produzindo culpa em quem vampirizam.

Quando invejam a vida social, vampiros/as seduzem alguém que consiga os introduzir em um meio social invejado, como o meio intelectual, artístico ou de alguma camada que considerem como sendo a alta sociedade.Também podem invejar a alegria, dons musicais ou literários, sensibilidade, capacidade de comunicação, empatia, solidariedade, capacidade cognitiva, etc. A pessoa eleita acaba facilitando o acesso do/a vampiro/a ao atributo invejado, que incorpora-os. As coisas acontecem de tal modo que a vítima vai se enfraquecendo, tendo sua auto estima destruída, de tal modo que todas as suas qualidades passam a ser percebidas como pertencentes ao vampiro/a.

Para escaparem da dor psíquica, os/as vampiros/as defenderem-se usando o mecanismo de defesa da projeção, jogando seus erros na pessoa que capturam e inocentam-se; jamais são culpados, creditando todos os seus insucessos e as suas dificuldades ao cônjuge. Também defendem-se com uma negação da realidade. Negam permanentemente seu funcionamento, mesmo quando a realidade prova o contrário, pois desta forma, o sofrimento é excluído.

Sendo incapazes de amar, destroem a pessoa eleita, sentindo-se assim superiores; sentem-se felizes com o sofrimento e a destruição moral, financeira ou emocional do outro, pois para afirmar-se, precisam destruir. Quando a vítima reage e tenta opor-se, a maldade que até então estava disfarçada, dá lugar a uma hostilidade declarada, iniciando-se a fase de destruição moral, também chamada de psicoterror.
Nesta fase, todos os meios são utilizados pelo/a vampiro/a para destruir a pessoa que elegeram, inclusive a violência física, objetivando levar esta a um aniquilamento psíquico ou ao suicídio.

Agredir aos outros é a maneira do/a vampiro/a  evitar a dor e a depressão, por isso, constantemente provocam ao outro para a manter a ausência da paz.  Que a dor e a depressão sejam suportadas pela pessoa que elegeram para vampirizar!

Tentar convencer um/a vampiro/a que cometeu um erro é insistir na relação patológica, pois este/a negará que errou até a morte. Jamais espere mudar ou receber algo dele/a, acredite, ele/a não tem nada para dar pois, como diz Zé Ramalho em “A sagrada escritura dos violeiros”:

” Quem tem o mel, dá o mel.
Quem tem o fel, dá o fel.
Quem nada tem, nada dá”

Enredamento, sedução e manipulação: a violência perversa contra mulheres

Postado em 06.07.2016  

É possível começar a destruir alguém apenas com palavras, frieza emocional, insinuações: isto chama-se violência perversa. Em suas teias, os perversos enredam as mulheres eleitas para serem suas vítimas…

 

               Disponível em http://3.bp.blogspot.com/_921nhmHEG1s/TEWtSyWQ2GI/AAAAAAAAA9c/38ILTiIaPIE/s1600/Mulher+na+teia.jpg

 

Este texto interessa a todos aqueles que não desejam ficar indiferentes ao problema da violência contra mulheres, que gera tantos sofrimentos nelas e em seus filhos e filhas.

Escutamos cotidianamente pontos de vistas equivocados, afirmando que a violência contra as mulheres começa com a permissão destas. Alguns afirmam que esta permissão ocorre no olhar, outros dizem que as vestimentas favorecem, uns acham que depende da reação das mulheres… Enfim, são tantos “achismos” e “teorias” que imutavelmente acabam culpabilizando as mulheres das violências que sofrem. Por isto, torna-se importante que possamos discutir este tema, pois no Brasil, estima-se que 5 mulheres são espancadas a cada 2 minutos, ocorre 1 estupro a cada 11 minutos, 1 feminicídio a cada 90 minutos e 179 denunciam casos de agressão a cada dia, segundo dados da Agência Patrícia Galvão. http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/sobre-as-violencias-contra-a-mulher/

As agressões físicas no casal não acontecem de repente, há uma escalada de comportamentos abusivos e de intimidação que iniciam-se antes de ocorrer a violência física, que é geralmente o último nível de violência. Mas, a pior delas é a menos visível, a psicológica, que não deixa marcas denunciáveis e é a mais utilizada pelos perversos. Se as mulheres deixam que isto ocorra com elas, é porque foram aprisionadas, colocadas sob influência. Este processo, segundo a francesa Hirigoyen, psiquiatra e vitimóloga, recebe o nome de ENREDAMENTO. (Hirigoyen, Marie-France. Assédio moral: a violência perversa no cotidiano. Ed Bertrand Brasil, 2012)

Muitas mulheres perguntam: por que aconteceu comigo? O que eu fiz para viver/merecer esta situação? É importante que entendamos que elas nada fizeram, são vítimas porque foram designadas para serem vítimas pelos perversos. Isto mesmo: os agressores de mulheres tem um perfil psicológico de perversão e/ou sociopatia.

Estes homens agressores invariavelmente são afetivamente frios e jamais sentem-se culpados, o que lhes permite terem uma excelente noite de sono depois de agredirem ou fazerem algo planejadamente destrutivo com a companheira. As mulheres eleitas para serem vítimas são escolhidas porque elas tem algo que eles querem ter, como status profissional, dinheiro ou características como a bondade, enfim, elas tem algo ou um atributo que eles não possuem e querem ter retirando dela, manipulando-a. O vazio interior de um perverso busca preencher-se com o que o outro tem, apropriando-se desta forma.

A manipulação faz parte da vida e ocorre diariamente com todos nós, o que faz a diferença na relação com um perverso é que há uma intencionalidade bem específica: a relação inicia com uma sedução perversa, com as ações planejadas por ele: verificará se a vítima está psicologicamente vulnerável, servindo aos seus propósitos; analisará os pontos fracos da vítima, para manipular com mais facilidade.

Nesta primeira fase, o perverso trata de seduzir a vítima, afastando-a da realidade, manipulando as aparências e demonstrando um interesse e uma afetividade falsos. Esta fase, também chamada de “descerebração”, pode desenrolar-se por muitos anos, ocorre progressivamente durante os primeiros tempos da relação por meio de um processo de pura sedução: ele será o maior incentivador dos projetos dela, o melhor pai ou cuidador para seus filhos, o companheiro mais atencioso do mundo… Sua fala histriônica o denuncia e geralmente alguém da família escuta a encenação no tom de voz e preocupa-se, mas o descerebramento faz com que a mulher não perceba ou não considere as observações que vem de fora da relação, pois já está presa pelo enredamento.

Nesta fase da sedução iniciam-se os ataques ao psiquismo da vítima, desestabilizando-a. Ela começa gradativamente a perder a confiança em si própria e a pensar que somente consegue fazer suas obrigações se receber a ajuda tão amável que vem dele, seu companheiro maravilhoso. No enredamento da vítima, o perverso narcisista não ataca de maneira frontal nas suas atuações, age sempre de forma indireta e começa a desestabilizar a vítima com estas ações sutis. Inicia a invasão do psiquismo da vítima, borrando as fronteiras entre o que é dela e o que é seu. Nas palavras de Hirigoyen: “O enredamento consiste em, sem argumentar, levar alguém a pensar, decidir ou conduzir-se de maneira diferente do que faria espontaneamente.”

Compreender o que ocorre e a influência e o controle que recebe faz a vítima se retirar da relação e em muitos casos, denunciar. Mas, como detectar os primeiros sinais de um abuso desta natureza? Mulheres em estado de subjugação psicológica: onde começa a influência normal e saudável, onde começa a manipulação?

Como se reconhece um manipulador? Muito difícil reconhecê-los prontamente, pois a sedução é seu modo de ser em todos os lugares onde atua. Via de regra, um manipulador é alguém que vai usar de um intenso processo de sedução para levar uma mulher a fazer algo que ela não faria por si mesma.

Para que fazer a vítima obedecer suas vontades, primeiro ele seduz, cola-se nela para se agarrar na sua vida. Em geral, inicialmente ele se coloca como vítima de algo/alguém ou desperta a compaixão da vítima de uma forma ou de outra. Então, quando se aproximou o suficiente de quem elegeu, empurra esta pessoa para longe para obter o que espera dela, pois neste momento o psiquismo dela já foi vampirizado e ela acredita que precisa dele para viver. A vítima passa a dar ao manipulador tudo que ele quer, para não perdê-lo, sem perceber o processo. Isto invariavelmente inclui exploração material.

Hirigoyen reitera: ” um manipulador pode manipular para obter dinheiro e, quando ele obteve o que ele quer, ele vai-se embora. Isso pode ser igualmente sobre o domínio emocional e ocorre muito frequentemente para obter poder, é um jogo de poder, de dominação e também uma forma de esmagar alguém, uma forma de tomar todo o lugar de alguém.”

Desta forma, os agressores perversos vão controlando e manipulando suas vítimas, vampirizando-as, retirando delas a auto estima, colocando-as numa espiral depressiva ou mesmo suicida. Muitas mulheres não sobrevivem depois de serem vítimas em uma relação com um perverso e se suicidam. Essas violências insidiosas decorrem de uma vontade que o perverso tem de se livrar-se de alguém sem sujar as mãos, porque o perverso avança mascarado, buscando com seus disfarces a compaixão de novas vítimas.

Comumente os perversos seguem perseguindo as vítimas, mesmo depois da separação. Os americanos chamam isto de de stalkin , ou seja, a perseguição permanente que consiste no fato dos perversos, ao não quererem largar sua presa, invadem permanentemente a vida das vítimas com suas presenças, mesmo que por meio do uso da internet. Neste caso, é fundamental fazer intervir a justiça, cercando as vítimas de medidas protetivas que restrinjam a atuação dos agressores.

A violência contra as mulheres inicia-se na falsidade e na psicopatia que sustentam os agressores. Estas falsidades precisam ser desvendadas para permitir que as vítimas possam encontrar as suas referências e sair do domínio dos seus agressores, compreendendo que a culpa não é delas, pois foram eleita justamente por uma qualidade que elas tem e que eles querem para si, vampirizando-as. O que move os perversos na direção das vítimas é a inveja: os perversos invejam, acima de tudo, a vida que as vítimas tem. E buscam apropriar-se das vidas que invejam, pois a vitalidade e a vontade de viver das vítimas aponta-lhes suas próprias fraquezas e faltas.

Alerta-nos Hirigoyen: “Não se contentando jamais, os perversos narcisistas estão sempre na posição de vítimas (…)   e por ocasião das separações os perversos posam de vítimas abandonadas, o que lhes dá melhor papel e lhes permite seduzir um outro parceiro, consolador.” E segue o ciclo de seduções…

Acrescento que os perversos facilmente posam de vítimas para seduzirem outras pessoas que necessitam para perseguirem ou prejudicarem as suas vítimas , entre elas advogados/as, psicólogos/as, amigos /as, pessoas conhecidas suas e da vítima, etc…

Coloco-me ao do lado das mulheres que diariamente sofrem violências físicas e psicológicas em relações perversas. É fundamental que possamos enquanto sociedade nomear estas violências para o que de fato são: um verdadeiro assassinato psíquico que ceifa a vida de incontáveis mulheres, diariamente.

Poucas mulheres sobrevivem psiquicamente ao relacionamento com um perverso. As que sobrevivem, precisam se fortalecer e denunciar, pois cabe a justiça acolher e entender estas mulheres e suas sofridas vivências, dando a elas medidas de proteção, barrando juridicamente aos perversos.

 

Imagem disponível em:  http://3.bp.blogspot.com/_921nhmHEG1s/TEWtSyWQ2GI/AAAAAAAAA9c/38ILTiIaPIE/s1600/Mulher+na+teia.jpg

Homofobia: ódio que mata

Postado em 20.06.2016  
Disponível em: http://www.ligacaoteen.com.br/wp-content/uploads/2015/03/homofobia-mata.jpg

Disponível em: http://www.ligacaoteen.com.br/wp-content/uploads/2015/03/homofobia-mata.jpg

Homofobia é definida genericamente como o ódio e violência contra membros da população LGBT e toda violência contra gays, lésbicas, travestis e transexuais é fomentada por esta doença. Questiono: por que tanto ódio em relação a estas sexualidades?

De acordo com dados do Relatório 2015 — Assassinatos de LGBT no Brasil, 318 pessoas da comunidade LGBT foram assassinadas por homofobia. (https://grupogaydabahia.com.br/2016/01/28/assassinato-de-lgbt-no-brasil-relatorio-2015/ ) Ou seja, nosso país atualmente mata em um ano seis vezes o número de gays que foram mortos em 12/06/2016 na boate em Orlando.

Sabe-se que 80 a 90% dos LGBTs que são agredidos ou que sofrem homofobia não denunciam, por medo das represálias.

Muitas vezes escutamos que a intolerância está vinculada ao fato de que alguns LGBTs demonstram mais a sexualidade com gestos, trejeitos ou atitudes, porém, sabemos que o ódio homofóbico também é destinado aos demais, os ditos “comportadinhos”. O sociólogo francês Eribon compara a homofobia onipresente na sociedade como um “constante assédio moral na vida de todos os gays independentemente de serem eles mais ou nada delicados.”

Este autor afirma : “as vezes, não é preciso gesto algum: a aparência ou as roupas bastam para desencadear o ódio. Tanto contra os gays mais assumidos quanto contra aqueles que o são menos ou não o são nem um pouco, contra os que “se exibem” como contra os que dão prova de “discrição”, a possibilidade de ser objeto da agressão verbal ou física permanece onipresente”. (ERIBON, Didier. Reflexões sobre a questão gay. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008. 445p.)

Podem influenciar na formação de uma pessoa homofóbica: baixos níveis de educação, conservadorismo exagerado, dogmatismo religioso e os suportes tradicionais de gênero que ensinam as feminilidades e as masculinidades e são repetidos acriticamente e  reforçados no imaginário social pelos discursos, piadas e  jargões, etc. 

 A discriminação homofóbica infelizmente acaba generalizando a forma como os LGBTs são vistos em todos os setores e segmentos de sua vida, ou seja, sua moral e atributos pessoais passam a ser considerados em função da sua sexualidade.

Equivocadamente, a partir da premissa da sexualidade, passamos a analisar e julgar os seres humanos e a generalizar os conceitos de “bons” ou “maus”. Esta lógica binária impõe posicionamentos rígidos, como se todos os heterossexuais fossem bons e os homossexuais maus, ou vice-versa.

Assim como existem heterossexuais bons e alguns que fazem mal ao mundo, também existem homossexuais bons e outros que fazem mal ao mundo. Em ambos os casos, as atitudes e escolhas pessoais não são oriundas da sexualidade, mas do caráter e da constituição psíquica da pessoa.

Conheço heterossexuais e homossexuais cruéis e capazes de atrocidades terríveis contra outros seres humanos, sem culpa alguma; e heterossexuais e homossexuais bondosos e genuinamente amorosos. Porém, não posso afirmar que por conhecer alguém bom ou mau, que TODOS sejam bons ou maus. Sempre que generalizamos, nos equivocamos, pois a sexualidade não define o caráter de uma pessoa, mas sim o comportamento, as atitudes desta pessoa em relação aos outros e ao mundo que lhe cerca.

Neste contexto, quem mata alguém por conta da sexualidade, mata movido por um ódio patológico, que é dirigido preferencialmente aos LGBTs. Em grande medida, desconhecemos o sofrimento que os estigmas sociais geram nestas pessoas e ignoramos as mortes que ocorrem; 50% de todos os casos de assassinatos de pessoas trans no mundo ocorrem no Brasil, segundo dados publicados pela transrespect-transphobia.org

A homofobia é uma doença que precisa ser tratada, pois gera sofrimentos e promove estes bárbaros assassinatos.

 

 

 

Violências familiares cotidianas: invisíveis e poderosas

Postado em 22.05.2016  
Disponível em : http://violencia8a.blogspot.com.br/p/blog-page_52.html

Disponível em : http://violencia8a.blogspot.com.br/p/blog-page_52.html

 

Preocupada, pronho uma dicussão sobre a banalização da violência familiar.
De uma forma problemática, assistimos cotidianamente atos violentos, sobre os quais nada fazemos, pois nossa cultura nos ensina: em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher!
Concordamos com o ditado e acabamos estendendo ele para as demais searas da família, nada fazemos frente a violência que ocorre entre pais e filhos/as, mães e filhos/as. Assistimos atos de violências familiares, como se estes não produzissem nenhum efeito na subjetividade de quem os sofre.
Levantamos nossas vozes defendendo animais (e é bom bom que o façamos), mas inúmeras vezes não levantamos estas mesmas vozes para defendermos nossos entes queridos de agressões físicas e psicológicas, que produzem danos cuja extensão é indiscutivelmente terrível para quem as sofre.

Falo de pais emocionalmente descontrolados, que deslocam e descontam em casa, nos filhos/as toda a raiva e agressividade que não conseguem elaborar no dia a dia, com quem de fato os molesta.
Infelizmente, estes pais atuam desta forma desmedida pois contam com a assistência passiva das mães, que ensinam aos filhos/as a suportarem estas situações, pois, afinal: “ele é um homem bom, só está estressado…” Estas mães aprenderam quando meninas que este é o lugar das mulheres na relação familiar  e repetem e ensinam sem críticas, `as filhas e filhos,  o que aprenderam com as mães, avós e outras mulheres da família.

Também falo de mães abusadoras, que disfarçadas com o manto da superproteção, desprotegem as crias ou negligenciam as reais necessidades da prole , ou de mães que literalmente nocauteiam aos filhos/as com palavras duras, humilhações, agressões físicas e psicológicas, com o aval e a omissão paterna.
Estas situações de violências familiares geram sofrimentos em filhos/as e são o nascedouro das psicopatologias da infância e da adolescência.

Recordo-me de uma adolescente cujo caso supervisionei anos atrás; seu pai era famoso no grupo de amigos e na cidade onde moravam por suas crises histéricas, pelos gritos e brigas constantes com a família. A mãe, passivamente aceitava o comportamento deste pai e amortecia suas atuações frente aos demais familiares e amigos, maquiando a maneira enlouquecedora dele portar-se , transformando estas violências em histórias engraçadas que provocavam risos nos almoços de domingo com a família. O disfarce funcionava bem.
Mas a adolescente, não aguentando mais as tensões resultantes destas violências, adoeceu psiquicamente. Seu sofrimento fazia ela arrancar seus cabelos, ela sofria de tricotilomania, um transtorno que se inicia geralmente devido a tensões vivenciadas dentro da família e arrancar os cabelos é sentido como uma maneira de aliviar esta tensão. Sentimentos depressivos, estresse e problemas para lidar com a raiva também auxiliam para o início do adoecimento psicológico das pessoas que são acometidas por tricotilomania.
A mãe relutava em aceitar que a doença da filha fosse de fundo emocional, afinal, eram somente cabelos caindo, que facilmente seriam repostos pela medicação tópica prescrita pelo/a dermatologista.
Inúmeros exemplos poderiam ser citados, ilustrando o quanto filhos/as adoecem psiquicamente com as violências que sofrem ou assistem no seio familiar, afinal, o lugar onde deveriam sentir-se protegidos, torna-se o cativeiro onde convivem com algozes a quem eles/elas suportam e perdoam, por amor. Até adoecerem.

Quem está saudável cuida, protege a prole e interdita o/a companheiro/a que faz a família sofrer. Quem infelizmente já adoeceu no convívio com um/a cônjuge violento/a, ignora os efeitos nocivos na família e consente com a violência praticada, tornando-se cúmplice no adoecimento dos/as filhos/as.

Convido-os a expressarem seus sentimentos e pensamentos através de comentários e caso sentirem-se  a vontade, compartilhem seus relatos (de forma anônima e protegida) na parte de depoimentos do blog.

Precisamos falar sobre o Feminicídio

Postado em 17.04.2016  
Disponível em: http://www.telesurtv.net/__export/1416858335681/sites/telesur/img/news/2014/11/24/femi.png_1718483346.png

Disponível em: http://www.telesurtv.net/__export/1416858335681/sites/telesur/img/news/2014/11/24/femi.png_1718483346.png

No Brasil, a taxa de feminicídios é a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No dia 22 de março deste ano, a pacata cidade gaúcha de Bom Princípio, no Rio Grande do Sul, passou a fazer parte desta infeliz estatística. As 7 horas da manhã, o ex policial militar Marcelo, de 47 anos,  matou a companheira Márcia , 27 anos e as enteadas Jaíne de 16 anos e Jeisse de apenas 4 anos, golpeando-as violentamente, usando uma faca de cozinha e uma adaga. Ao longo de três anos, o casal terminou e reatou o relacionamento várias vezes e estavam separando-se, ela recebera uma medida protetiva após denúncia da violência e ameaças que sofria, porém, ainda acreditava na possibilidade de ser  amada e serem uma família.

No complexo processo de aceitação/subjetivação/objetivação do que foi construído sócio-historicamente em torno de ser mulher e de ser homem nas sociedades herdeiras de uma cultura patriarcal, adquire relevância indiscutível o mito do amor romântico. Esse mito perpetua o vínculo funcional dependente nos relacionamentos entre um casal. Junto aos sentimentos amorosos, vão instituindo-se posições de poder que não favorecem as mulheres, fazendo com que estas sejam dependentes do amor de um homem.  O amor romântico não é fonte de transcendência, felicidade nem autorealização,  ao contrário do que transmite a mitologia popular, ele constitui uma das principais causas da brecha existente entre homens e mulheres, sendo uma das práticas culturais que obrigam a mulher a aceitar e amar sua própria submissão (Illuz, Eva. Por qué duele el amor. Una explicación sociológica. Buenos Aires: Katz Editores, 2014).

Da cena brutal å morte da mãe e das filhas, tudo choca. Falamos sobre o fato nas rodas de conversa do dia, durante a semana, talvez até ao longo do mês. Alguns até partilham a notícia, mas com zelo, pois gostamos de partilhar a priori coisas de bom astral, afinal, gostamos de ser curtid@s!

Passado pouco tempo, sobressai um aspecto relevante e que quase não percebemos: o nosso esquecimento. A maioria de nós esquece o feminicídio rapidamente. Não protestamos, não nos escandalizamos com estas mortes com a devida intensidade e valor que deveríamos.

Diante da brutalidade do feminicídio, assistimos cotidianamente mulheres e homens de outros países saírem as ruas exigindo mudanças radicais nas políticas públicas, pois não admitem com tanta naturalização que mulheres e crianças sejam assassinados por quem deveria preservar suas vidas. E no Brasil?  Admitimos, pois infelizmente o jargão “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” criou no imaginário social a idéia que não podemos como sociedade interferir na violência doméstica, por pertencer a esfera privada. O que é um erro grave, pois o Estado deve meter a colher, com a formulação de  políticas públicas para o enfrentamento da violência doméstica contra a mulher e a sociedade não pode seguir  alargando as margens de aceitação da violência contra mulheres.

Sobre o fato ocorrido no sul do país,  o ex marido de Márcia justifica sua atitude alegando ter sofrido uma suposta traição. Afirma: ela é a culpada, não se acertava com ninguém, se separou duas vezes antes de casar com ele.  Ou seja: ela é a culpada da sua morte!

Somos culpadas se somos assassinadas por companheiros, pois insistimos em uma relação; somos culpadas se somos enganadas em um relacionamento, pois somos ingênuas e imaturas; somos culpadas do estupro pois usamos roupas inadequadas ou provocativas; somos culpadas se tentamos um relacionamento e este não evolui,  como se os relacionamentos fossem responsabilidade  somente das mulheres…

Somos julgadas por homens e mulheres; assusta a quantidade de relatos que escuto de mulheres que são extremamente cruéis ao julgarem outras mulheres. A violência intragênero cerca as relações femininas e raramente refletimos sobre o quanto somos violentas nos julgamentos e atitudes com outras mulheres…

Esquecemos o feminicídio, pois negamos que nossas filhas, netas, amigas, mães, colegas, enfim, todas nós em alguma medida, podemos ser vítimas de alguma maneira: morrendo ou perdendo alguma mulher que amamos.

Cada mulher que é assassinada leva junto  consigo para o túmulo a felicidade de toda a família, pois quem permanece vivo, jamais se recupera totalmente desta brutalidade.

“Feminicídios são assassinatos cruéis e marcados por impossibilidade de defesa da vítima, torturas, mutilações e degradações do corpo e da memória. E, na maioria das vezes, não se encerram com o assassinato. Mantém-se pela impunidade e pela dificuldade do poder público em garantir a justiça às vítimas e a punição aos agressores”.

“O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.”
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher (Relatório Final, CPMI-VCM, 2013)

 

Matéria sobre o assassinato de Márcia (27 anos)  e suas filhas  Jaíne (16 anos) e Jeisse (4 anos)  disponível em :

http://www.jornalnh.com.br/_conteudo/2016/03/noticias/regiao/299391-autor-de-triplo-homicidio-conta-detalhes-do-crime-que-chocou-bom-principio.html